Quando eu era uma miuda e ainda acreditava em sonhos cor de rosa e principes encantados {porque agora continuo a ser uma miuda mas já não acredito nessas coisas, se bem que ainda acredite em ilusões e continue a sonhar muuuuitoooo} tive um boneco.
Não era um boneco qualquer. Era preto. E tinha cabelo. E era "estrangeiro" (trouxe-me o meu pai, carinhosamente, da Suiça). As minhas amigas também tinham bonecos. Mas eram brancos. E não tinham cabelo. E eram nacionais.
Já nessa altura, nos anos que se dizem da inocência, eu dava mostras da grande ingrata que era. Todas as minhas amigas queriam brincar com o meu boneco. Porque era preto. Porque tinha cabelo. Porque era diferente. Já eu, teimosinha que só visto, queria brincar com os delas. Porque eram brancos. Porque não tinham cabelo. Porque estavam na moda.
E chorava. Aliás, já nessa altura chorava muito, característica que se mantem ate hoje... Chorava porque queria um careca branco e não um preto com cabelo. E a minha mãe, com a paciência que nunca lhe foi característica (coisa que também herdei dela), lá me explicava uma e outra vez, que o meu era mais giro. Que era diferente. Que era preto. Que tinha cabelo. Exactamente os mesmos argumentos que eu utilizava para argumentar o "é feio", o "não quero", o "não gosto".
Os anos passaram e com eles eu fui compreendendo a beleza desse meu boneco. Diferente de todos os outros. Mas, a par e passo com essa compreesão, que por vezes a idade nos obriga a ter, foi sempre caminhando a mágoa. O Ressentimento. A tristeza de ter um preto com cabelo e querer um branco careca.
Por isso, talvez por isso, não me considere racista para com essa raça. Afinal, ela faz parte das minhas mais tenras memórias de infância.
Mas, também por isso continuo à espera da altura que um qualquer comportamento meu, mais ou menos desviado, mais ou menos à margem do padronizado, seja explicado, por qualquer técnico que dedica anos de vida ao estudo da mente humana, como um ressabiamento dessa altura da minha vida. De quando eu tinha um preto com cabelo e todas as outras um branco careca.
Porque isso, e dúvidas não tenho nenhumas, há-de servir de móbil para justificar um comportamento que eventualmente possa vir a ter. Afinal, tudo, ou quase tudo, assenta em traumas de infância. Recalcados no mais infimo da nossa memória. Reprimidos até à exaustação...
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