...e nós não tinhamos sonhado com ela nem no pior dos nossos pesadelos...
O tempo pára e vivemos uma realidade paralela de negação. Aquilo, aquela partida, não aconteceu. Não com um dos nossos. Teimamos em não acreditar em todas as provas que nos são dadas. Forçamos um regresso ao passado onde tudo ainda era vida. Não temos forças para encarar o presente. Não o queremos. Renegamo-lo. Os minutos vão passado e cada vez mais nos beliscamos para acordar. Na verdade estamos acordados desde o início e não conseguimos mudar esta realidade. Os telefones que não param fazem-nos ter a certeza que não queríamos ter. As pessoas que vão chegando vestidas de negro. Toda a burocracia que é necessário tratar. A certeza... É mesmo verdade. A morte bateu-nos à porta e nós não a conseguimos fechar a tempo.
Ninguém está preparado para uma morte, muito menos para uma imprevisível.
Ninguém consegue chorar toda a dor que sente. Ninguém consegue perceber essa coisa da justiça divina quando "ele" leva um dos nossos. Não, não tinha que ser. Estas coisas nunca deveriam ter que ser. E por isso não se aceitam.
Há três dias atrás não morreu só ele. Morreu uma parte de mim, uma das muitas partes que ele me ajudou a construir. Porque ele era um homem bom. E, as largas centenas de pessoas que choraram a sua morte disso me fazem ter certeza!
A vida, para nós que o chorámos, vai continuar. Vai ser uma vida de reaprendizagens, de reerguer uma "casa" depois de lhe arrancarem um pilar. Vai ser doloroso, vai ser um longo percurso que, de uma forma ou de outra, temos que fazer. E, durante muito e muito tempo, vamos continuar a chorar a sua partida. Até que um dia conseguiremos sorrir por nos recordarmos de ter tido a sorte de ter uma pessoa assim na nossa vida.
O dia em que a morte me bateu à porta foi, indubitavelmente, o dia mais triste da minha vida e trouxe-me a certeza de que nunca mais os natais serão iguais.
Há, realmente, "dias que marcam a alma e a vida da gente", da mesma forma que "Há gente que fica na história da história da gente" e tu, que me criaste como uma filha, és uma dessas pessoas!
Um abraço e um beijo da tua nina, do tamanho da distância que nos separa!