Nos meus tempos de criança, em que ainda se privilegiava o brincar na rua, eu e uma amiga minha tínhamos como principal distracção brincar com o telefone.
Nessa altura, em que tínhamos a imaginação no auge, inventávamos mil e uma situações para que nos pudéssemos divertir.
Uma delas, talvez a que mais gozo nos dava, era imaginar que éramos umas quaisquer representantes de uma determinada marca de detergente para a máquina e contactar uma qualquer idosa que conhecesse-mos e dizer que tinha sido a feliz contemplada com uma máquina de lavar roupa. Tínhamos um discurso topo pipi para fazer e sabíamos de cor e salteado os truques que deveríamos utilizar para disfarçar a voz. Entre um estrondoso "parabéns" e o agendamento da entrega da máquina, a nossa principal dificuldade era mesmo esconder o riso, que a todo o custo queria fazer-se ouvir.
Depois, bem depois tínhamos liberdade suficiente para ir ver in loco a euforia da nossa 'vítima' e a rapidez com que essa mesma euforia era partilhada por todos os vizinhos. E depois a frustração, nunca transformada em tristeza, mas sim em mal dizer de uma marca que não cumpria o que prometia (ainda hoje tenho a sensação de que depois de cada telefonema a Skip passou a vender menos na área onde residia)
Passados 20 anos, numa altura em que faleceu uma das nossas maiores 'vitimas', volto a recordar-de desses tempos e sinto uma mistura de emoções: por um lado orgulho por termos conseguido esconder até ao dia de hoje essa maldade, por outro sinto um leve peso na consciência por nunca, mas mesmo nunca, ter tido a coragem ou mesmo a oportunidade de dizer "Sabe Srª Ana, de todas as vezes que lhe ligaram a dizer que tinha ganho alguma coisa, era eu. Nunca ganhou nada".

