Lembro-me do primeiro beijo roubado no quintal ao lado da minha casa. Meio envergonhado, meio timido mas há muito aguardado. Lembro-me dos olhares cumplices que tinhamos. Olhares que toda a gente entendia e que nos revelavam para o mundo. Lembro-me das saídas apressadas. Da mão na mão. Lembro-me dos encontros despropositados que se faziam com sentido. Lembro-me dos filmes que víamos, só para estar perto. Só para estar junto. Lembro-me de ficar embevecida à porta de casa só para te ver passar.
Anos depois reencontro-te. As redes sociais têm destas coisas! Daquela altura apenas te resta o nome e o azul dos olhos. Tudo o resto tão diferente. Tão distinto. Como se os anos te tivessem dado outras feições. Tivessem alterado o teu aspeto fisíco para o de alguem com quem nunca me cruzei na vida, que nunca fez parte da minha vida. Não fosse aquele azul cor de mar... De resto, não te reconheceria se te encontrasse por aí, pelo mundo. (Quem sabe não nos teremos já cruzado? Afinal a tua localização é a mesma do que a minha).
Anos depois "vejo-te" na vida com quem sempre te imaginei. De casa ás costas. Livre. Pelo mundo. E isso, daquilo que era o teu mais profundo ser, também não mudou. A liberdade. A tua liberdade e a tua sede de seres cada vez mais nómada.
Anos depois, e mesmo sem te ver, algo me faria lembrar imediatamente de ti. Uma única palavra: MIRA. Porque de pequenas palavras também se faz a lembrança... E, ver que esse é o nome que deste a algo que é tão teu, a algo que te acompanha na tua longa caminhada, fez-me ter a certeza que há coisas que não mudam nunca...
Anos depois percebo que, naquela idade da inocência, o azul dos teus olhos me encantou. E o teu jeito reguila, que também não te reconheço mais hoje. Nem o cabelo rebelde tens mais...
Anos depois, és uma pessoa do mundo, como sempre foste, mesmo quando eras minha.