21.3.12

Das lembranças {novamente}...

Sou uma romântica por natureza, portanto uma pessoa presa ás recordações. Não faço delas o meu pão do dia a dia, mas alimentam-me em muitas alturas. 

Não raramente acontece uma música, uma imagem, uma palavra, um cheiro, fazerem-me recuar no tempo. Para um momento em específico que, mais ou menos consciente, ficou preso nas amarras da memória.

Ontem à noite foi assim. Deitei-me e, no meio do silêncio que reinava, começo a ouvir, ainda que timidamente, um tic tac que se fazia ouvir. E de imediato, quase mais rapidamento do que a velocidade da luz, sou transportada para casa da minha avó. Retrocedo mais de 20 anos e recordo aquele som ensurdecedor que o relogio a corda emanava, nas noites de profunda calmaria. Recordo-me das noites em que o meu avô ia dormir para o outro quarto para que a minha avó me fizesse companhia durante a noite, e em que eu ficava a contar todos os "tics" e os "tacs" até que o sono chegava e me embalava para o mundo dos sonhos. Recordo, inevitavelmente, o cheiro da casa da minha avó. Do quanto lá gostava de estar, mas também do quanto quando lá estava queria regressar. Recordo ainda os "amigos" que por lá fiz e que nunca mais voltei a encontrar. 

Volto-me na cama, na perspectiva do sono chegar, mas o tic tac que se continua a fazer ouvir impede-o de vir.

De forma totalmente consciente apetece-me voltar lá. Voltar a recordar as mãos da minha avó. Pequeninas como toda ela era. Voltar a recordar a figura impávida e serena que era a do meu avô. O sabor a doce de tomate e a pão com manteiga e açucar. As recordações. Ai as recordações. Sempre essas benditas.

E, ainda que o pudesse não fazer, ou pelos menos evitá-lo, recordo-me do dia em que a minha avó nos deixou. Exactamente 6 meses depois do meu avô. Como que a corroborar aquela teoria que existe entre os de 2 ou 3 gerações atrás e que defende que se morre de saudade... que quando as pessoas vivem juntas muito anos (várias décadas neste caso), o amor continua para além de algo palpável. De algo material que se possa ver. Com eles foi assim. 1º um e 6 meses depois outro.

E agora o sentimento que me assola é o de angustia. Está na hora de ganhar coragem... Levanto-me e vou guardar o relógio onde o Tic Tac não interfira mais. E, no mais intimo do meu ser, continuo a contar... até que o sono chegue...

1 comentário:

Ana disse...

E o café acabadinho de fazer e o pão quentinho que nos esperava sempre que lá chegavamos.
Saudades, tenho tantas saudades <3