3.11.11

Da profissão que escolhi (mas que não é a minha)...

Quando tinha 18 anos e achava que o mundo era perfeito, justo e honesto, escolhi ser psicóloga.

A psicologia não "nasceu" por nenhum motivo em especial, nem de nenhum episódio em concreto. Nunca na minha vida fui ao psicólogo. Na altura não tinha amigos psicólogos. Não existia nenhuma série onde a psicologia fosse rainha e senhora. Todo e qualquer contacto que até então tinha tido com a psicologia tinha sido no 12º ano, na forma de uma disciplina, obrigatória, na área que escolhi.

Assim, até cheguei mesmo a pensar que afinal foi a psicologia que me escolheu e não eu que a escolhi a ela.

Na altura que entrei para a universidade, e com o decorrer do curso, tive a certeza de que tinha feito a escolha certa. Andava apaixonada por "aquilo" e a cada dia que passava, a cada nova cadeira, mais esse sentimento crescia.

No início do século, quando chegou a altura de ir estagiar, de colocar em prática tudo o que ao longo de 4 anos tinha aprendido, comecei a ficar apreensiva. A julgar que na teoria é tudo muito bonito mas na prática as coisas não são bem assim. O meu erro, talvez, tenha sido ir trabalhar com crianças. Com crianças de meios sociais tão distintos e que, por esse motivo, a minha presença nem sempre era "bem vinda". Se, para os mais desfavorecidos eu representava uma "oportunidade", já para aqueles cujos pais tinham o Dr antes do nome as coisas não funcionavam bem assim. Porque dizer a uns pais médicos que o filho sofria de autismo era como que presenciar  a  minha sentença de morte... Eu, uma miudita a dizer tal coisa, a fazer tal diagnóstico, impensável para aqueles pais...

Por volta desta altura comecei a perceber que o mundo talvez não fosse tão honesto como os meus olhos cor de mel o viam... Desiludi-me com as pessoas e com a profissão que eu tinha escolhido, ou que me tinha escolhido a mim...

Guardo, no entanto, desses anos, a certeza de que estiveram entre os melhores da minha vida. Também sei que o estágio foi, apesar de tudo, uma grande experiência profissional que tive e terminei-o com a certeza de dever cumprido.

E, se dúvidas tivesse, para o comprovar, ainda no outro dia, encontrei algumas miudas, na altura crianças, que acompanhei. Continuam a sorrir. A correr para mim. A pedirem para "falar um bocadinho, como antes fazíamos". E eu continuo a sentir o coração pequeno. Apertado. Com uma vontade enorme de as voltar a ouvir. De lhes dar atenção. De lhes dar o que não tinham em casa e que dinheiro nenhum no mundo pode comprar. Cruzo-me, amíude, com umas e com outras. E a sensação é sempre a mesma. De regressão, para aquela época em que um simples sorriso me fazia ganhar o dia.

Tudo isto a propósito de um artigo que li recentemente sobre "o lado negro dos divãs dos psicólogos". Li e não gostei. Porque as pessoas continuam a achar que vão encontrar fórmulas mágicas no dito divã. Porque as pessoas continuam a achar que todo o esforço tem que vir dos psicólogos e não das próprias. Quando a psicologia é tão mais do que isso. Quando se continua a julgar que são meia dúzia de "drogas" que lhe vão varrer os problemas da alma. Quando, em pleno século XXI, se continua a achar que não existem recalcamentos que podem mudar a nossa vida para sempre. E que devem ser ultrapassados. E que tem que ser ultrapassados. E enquanto as pessoas não se consciencializarem de que toda e qualquer ajuda tem que vir delas próprias. Sobretudo com força de vontade, todos os divãs vão continuar a ter um lado negro...

1 comentário:

Ana disse...

Se ela te escolheu, não foi ao acaso.. Talvez precisasses de ser tu a escolher os teus 'pacientes'..e não estar sob a mira dos doutores-cujos-filhos-alguma-vez-terão-algum-disturbio.
Não se trata de encontrar magia nos divãs..trata-se de.. As pessoas têm que acreditar nalguma coisa, têm que se agarrar a algo que não as deixe cair. Porque se todos começarem a acreditar que muito se resume à força interior.. Bem, lá vão mais umas centenas para o desemprego :P