Quando eu era {ainda mais}criança, tive a ousadia de chamar cabrão ao meu pai.
Na ingenuidade dos meus 2 ou 3 anos (não eram mais do que esses) achei que esse seria o termo exato para me referir à pessoa que é responsável por metade do que sou. Por teimosia, única e exclusivamente por teimosia, chamei-o uma e outra e ainda outra vez. O motivo era simples: já nessa altura o meu pai tinha uma péssima mania: colocava-se à frente da televisão, independentemente de quem a estivesse a ver. Numa tentativa nada cordial de lhe pedir que se desviasse disse claramente "saí da frente cabrão". Numa 1ª altura o meu pai, bem como todos que lá estavam, ficaram petrificados- convenhamos que há 30 anos atrás a palavra cabrão não andasse nas bocas do mundo nem era vocábulo usual lá por casa (acho que a grande dificuldade mesmo foi a descoberta de onde teria eu aprendido tamanha asneira). A 1ª reação foi alertar-me "isso não se chama ao pai". Mas a mim, que tal como o meu pai também já tinha péssimos hábitos nessa altura, o dizerem-me para não fazer era ouvido exatamente da forma contrária. E eu insisti. Uma e outra e outra vez, tendo sido alertada entre cada uma delas.
O meu pai, pessoa de pouca paciência e fazendo jus ao nome que ostenta, puxou a mão atrás e deu-me uma valente chapada.
Conta a lenda, no caso a minha mãe, que como consequência dessa reação do meu pai eu mordi o lábio. E chorei. Chorei muito. Mesmo muito. Tanto que adormeci a chorar. E, de tanto chorar e por ter mordido os lábios era difícil de descodificar o que no meu rosto estava mais inchado: os lábios ou os olhos.
O meu pai, que após esse ato virou costas, só me voltou a por a vista em cima quando eu estava no mais profundo sono. Completamente desfigurada. Tão desfigurada de inchada que estava que o meu pai se assustou. E chorou. Tanto ou mais do que eu...
Passados 30 anos sei que essa chapada não se deveu a toda a carga negativa à volta do vocábulo que utilizei para me referir ao meu pai, porque a desconhecia por completo, mas sim à minha teimosia, que faço questão de preservar até hoje. Afinal, há coisas que nunca mudam!!!
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